Em "Pelas ruas que andei", Tom Torres revela a alma de uma cidade
07/02/2026 - 10:36
Como esta é uma resenha, embora não-literária, com base no modelo crítico-cultural, posso me inserir no texto com já o estou fazendo. Os Torres de Sátiro Dias é uma família de escritores, se tornou, melhor dizendo. E quando falam da literatura de Antônio Torres, fala-se em literatura torreana, então fica confuso, pois se Antônio é membro da Academia Brasileira de Letras, Décio Torres é parte da Baiana. E ainda tem Tom Torres que é membro da Alagoinhense, se não estou enganado.
Mas a confusão maior não passa por aí, porque os três pertencem por parte de mãe às famílias Vieira e Lopes. Ainda tem os Cruz para entrar nesta história. Fiz minha pesquisa de pós-graduação sobre o livro "Essa Terra", de Antônio Torres e como sou dos Vieira Lopes, advogo a participação desta na criatividade tão bem reconhecida. Trago como carta na manga a figura de Humberto Vieira, jornalista da Globo ou do Globo. E lembro como minha avó materna, Maria Eremita Vieira Lopes, gostava de nos contar estórias e entoar cantigas populares.
Com a pesquisa de Cristiana da Cruz Alves, prima dos escritores, me dei conta que literatura em Sátiro Dias é mato. Roland Barthes, em "Aula" e Giles Deleuze, em "Literatura e a vida", falam que a sintaxe tem a capacidade de construir significados, não só as palavras, os signos. Acho que esta é a chave para entender literatura e a literatura dos Torres como também para falar do livro "Pelas ruas que andei" de Tom Torres. Primeiro, uma surpresa: ele é tão bom escritor quanto Antônio e Décio, considerando o que escreveu Giles Deleuze em "Por uma literatura menor". Ele fala que Kafka narrou suas estórias na língua do povo, foi um dos primeiros. Embora redigisse em alemão, se valia da sintaxe tcheca das ruas. É o que, modéstia à parte, venho tentando fazer com meu jornalismo no meu blog, mas descobri como fazer isto de verdade com o português, lendo agora Tom Torres.
Nisso ele passou a perna nos irmãos Décio, personagem presente na neste seu novo livro, e Antônio Torres. Antônio é fabuloso, Décio é incrível, mas, mesmo tentando trilhar os caminhos da "literatura menor", ainda têm um pé no modernismo acadêmico - que fora antiacadêmico e anticanônico, um dia, mas que hoje formam o novo cânone, a realidade é mutação e diferenciação.
Tom Torres vai falando, contando um “causo”, normal, quase singelo, de repente, rápido, zombeteiro e cruel, provoca um choque de significantes - que alguns chamam de metáfora, Kafka não gostava de metáforas. Choque de significantes como compreende Lacan. Todo modernista e pós-modernista usa este recurso - é como está estruturado o inconsciente. Considero Antônio Torres nosso primeiro pós-modernista na literatura assim como Caetano foi para a canção - embora a primeira música pós-modernista seja Romaria de Renato Teixeira.
Nosso autor não é de fazer bricolagens, faz traquinagens. Sua narrativa flui como águas plácidas que, de repente, tropeça em um signo enviesado e as águas se tornam tormentosas. Num piscar de olhos, você se teletransporta para um lugar bem longínquo ou bastante profundo ou elevado ou vê o mundo girar. Tom Torres lhe tira do eixo de suas verdades inabaláveis e lhe questiona, lhe põe nu e generosamente lhe devolve a si mesmo renovado. Às vezes é como descer em um tobogã ou como entrar na folia ou num entrevero. Em sua prosa tem poesia, mas isto é do DNA (torres, vieira, lopes, cruz):
"Crispim era um percussionista abençoado pelos Orixás e dava gosto de ver o couro de boi berrar seus lamentos de vida de gado."(p.36)
Descrevendo a severidade do professor de português:
"Ele se acomodou em sua cadeira, nos mandou abrir o livro na página 131, e disse do jeito especial de quem tem o poder de mandar e matar." (p.30)
Sobre a primeira paixão:
"Foi amor à primeira vista, e durou até o dia que o colega Belchior arranjou o trabalho de cobrador de Kombi. A Kombi que fazia a linha Santa Terezinha - Centro, e a deixava viajar de graça. Então, ela nunca mais me pediu para lhe dar pesca ou outra coisa qualquer. Lara, santa desilusão amorosa. Foi a minha primeira experiência com o capitalismo selvagem(...)" (p.16)
Pena que o texto para jornal tenha que ser curto. "Pelas ruas que andei" é um livro de memórias e da história da cidade de Alagoinhas. O livro tem uma sacada incrível, ao invés falar dos acontecimentos políticos, os coloca à margem, de passagem. No centro da narrativa figuram personagens marcantes da sociedade, mas não da alta sociedade, do povo mesmo e também da vida cultural. Narra as estórias e histórias das bandas e conjuntos musicais, desde o início com Os Caciques, Os Turunas (destacando a figura Seo Benigno), Os Milionários, Os Planetas - Controle Remoto. O Som da Terra - Acorde os Tons. De cada uma conta uma história peculiar. Retrata o ACRA e o Tênis Clube e as puladas de muro. Mas cita outros mais populares como o Vencedor, na praça Santa Izabel e o Náutico, no Thompson Flores. Trata dos cinemas, destacando o cine-teatro Azi. Resgata o papel do hotel Denver para a vida social e cultural da cidade
Fica evidenciada a importância dos serviços de alto-falantes, que precederam a Rádio Emissora de Alagoinhas e com ela competiram durante alguns anos, onde se destacou a figura do jovem repórter Belmiro Deusdete ao lado de Efierre Dias. Os primeiros produtores culturais da cidade também. Existem histórias envolvendo a copa de 1966, transmitida pelo serviço de alto-falantes, as peças de teatro no Salão Cid Bastos e o início da Atlético de Alagoinhas com destaque para o ponta direita Caroço ao invés de Dendê. Na política, conta sobre influência dos professores do Centro Integrado Luís Navarro de Brito - o Estadual, recém formados na UFBA, com tendência socialista.
Para retratar os tempos duros da ditadura militar, Tom Torres relata histórias do sargento Couto. Narra, com a visão de um adolescente, a chegada do presidente militar Castelo Branco junto com Lomanto Jr de helicóptero, que pousou no campo de bola, onde hoje é o Carneirão (antigo campo da LDA). Como também a passagem de Ulysses Guimarães durante a campanha a prefeito de Marco Antunes.
Tom reserva uma estória particular para contar das piscinas alimentadas com as águas do rio Sauipe, que faziam a alegria da famílias, das crianças e dos jovens, ambiente de democracia social, onde todas as classes se reuniam, era um mundaréu de gente. Narra experiências juvenis, quando o único transporte para Salvador era o trem, com cerca de três horas de viagem. Faziam excursões para Itapuã. À noite, os vagões serviam de motel.
A vida sexual de um jovem de uma cidade do interior é retratada com bastante sensibilidade, incluindo a vida nos bregas muito frequentados. É marcante a dança caliente com uma jovem interrompida pela revelação de que se tratava da amante de um pistoleiro, temido na cidade. A feira do pau, a feira livre, a alegria e a euforia que traziam para o sábado e domingo ganham colorido nos causos contados por Tom Torres. ´É um capítulo à parte a vida familiar com sua mãe Durvalice, sempre o comparando com o irmão Décio, o seu antípoda. Este estudioso e bem comportado, sendo a régua moral para salientar o comportamento errático do autor. Entre militância política e noitadas no brega, formou sua personalidade irreverente literária, como bem se vê neste livro que fala da alma de uma cidade que ainda vive entre nós. Constitui nossa subjetividade e identidade. Lê-lo é como se olhar no espelho, tão fundamental quanto.
Referências bibliográficas
ALVES, Cristiana da Cruz. O JUNCO: lugar-personagem na obra dos escritores d’essa terra. Dissertação para o Programa de Pós-graduação em Crítica cultural-UNEB, Campus II, Alagoinhas-Ba- 2011.
BHARTES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1977.
DELEUZE, Gilles e GATARRI, Felix. Kafka: Por uma literatura menor?. Rio de Janeiro: Imago. Editora, 1977.
DELEUZE, Giles. Literatura e a Vida in: http://www.jefponte.com.br/livros/DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida.pdf, acessado em 20 de novembro de 2013.
FARIA. Michele Roman. Constituição do Sujeito e Estrutura Familiar - Complexo de Èdipo.de Freud a Lacan. Cabral Editora Universitária. Taubaté - SP, 2003.